Mossoró 25 de Fevereiro de 2018 22:00h
Crônicas

Aquilo que somos

.A vida é um compêndio de memórias avolumadas, algumas revividas no cotidiano, outras descartadas, ou quem sabe, guardadas para um dia qualquer, cheias de segredos, sejam capazes de nos abalar. Reviver uma memória esquecida é como voltar no tempo e reencontrar as sensações perdidas, as imagens, os odores de espaços até então desaparecidos.

07 de Novembro de 2017 - 10:21hs

Aquilo que somos

Muitas memórias existem em um instante. A vida é um compêndio de memórias avolumadas, algumas revividas no cotidiano, outras descartadas, ou quem sabe, guardadas para um dia qualquer, cheias de segredos, sejam capazes de nos abalar. Reviver uma memória esquecida é como voltar no tempo e reencontrar as sensações perdidas, as imagens, os odores de espaços até então desaparecidos.

No inverno de 1985, eu com três anos de idade, fui conduzido, junto com a minha família, para me abrigar em uma escola, depois que as inundações tomaram grande parte das terras onde morávamos. Não me lembro absolutamente nada desta passagem e até desconfio de sua existência, mas na cabeça de um amigo professor, obviamente de uma outra época anterior a minha, isso de fato aconteceu. Ele teria sido um dos coordenadores do grupo hoje conhecido como defesa civil.

Os neurocientistas, psiquiatras, psicólogos e neurologistas, afirmam existirem dois tipos de memória: a declarativa, capaz de armazenar o saber que algo se deu, e a não-declarativa, responsável por guardar a forma como isso se deu.

A declarativa, ou explícita, é a mais facilmente adquirida, de longo prazo, embora também fácil de ser esquecida. São instâncias desta definição a memória episódica, responsável por guardar momentos específicos, e a semântica que cuida das lembranças mais gerais do cotidiano.

A memória não-declarativa, chamada também de procedural ou implícita, por sua vez, fica responsável por armazenar os procedimentos motores e assegurar que nunca esqueçamos de andar de bicicleta, ou de atitudes mecânicas quase nunca esquecidas.

            Não somos os únicos a ter memória, outros animais também são dotados deste benefício. Estudo publicado na revista Current Biology, coloca os chimpanzés com melhor memória fotográfica que estudantes universitários.

            A maioria de nós pode não ter as partes do cérebro tão bem desenvolvidas para lembrar de tudo quando precisa. Esquecer o nome de alguém que me cumprimenta é algo bem comum e constrangedor. Ainda mais quando me perguntam, na mesma ocasião, de quem se trata. Ter vontade de falar com alguém e morrer na incerteza e até mesmo se pegar tendo um déjà vu sobre acontecimento idêntico a algo já vivenciado, é bastante comum e faz parte do nosso desenvolvimento cerebral. Mas nenhum desses acontecimentos nos deixam confortáveis, embora nada se compare as reminiscências.

            Posso não lembrar da enchente de 1985, mas constantemente sou atravessado por memórias desconhecidas de meu tempo presente. Imagens incompletas de algum instante percorrido no passado, a maioria negativas, agindo sobre mim como uma cobrança de algo dito ou vivido em situação inoportuna. As reminiscências são como facas cegas cortando a ponta dos dedos.

            Noutro dia, uma ex-colega de escola contou-me histórias longas de nosso tempo no ensino fundamental. Ri bastante, mas não tive certeza se vivi aquilo. Gostei de ter feito algumas coisas parecidas com minhas atitudes, agora tão vívidas em suas memórias e, talvez por isso, não revelei meu esquecimento. Desconheço o motivo de não guardar estes momentos, talvez seja para voltar a reencontrar a velha amiga e não perder a chance de ter assunto para conversar.

            A vida parece ser conduzida dentro de um paradoxo. Temos muito tempo, embora não tenhamos tempo algum. Quando jovens, temos pressa de viver e medo de morrer cedo. Ao envelhecermos, nos predemos ao passado desejando voltar no tempo. Em todos estes estágios, memórias vão se construindo e se afastando. Um perfume que nos pega de surpresa na rua, o cheiro de uma comida, um sabor aparecendo em nossa boca sem esperarmos; o tato de algum objeto capaz de nos transportar para longe.

            Somos feitos de lembranças e cada uma delas nos impulsionam na vida, para frente ou para trás. A maioria de nós, para não dizer todos nós, atravessa a existência nesta gangorra do passado e futuro sem se dar conta que, neste momento, construímos alguma memória. Algo bem pequeno capaz de nos cortar em algum dia e, só então, talvez nos demos conta daquilo que somos exatamente agora.

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