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Política

Deputados ‘youtubers’ irritam colegas e escancaram desordem de base aliada

Durante a cena da deliberação da MP 870, que decidiu pela transferência do Coaf para o Ministério da Economia, até parlamentares jovens se mostraram chocados com a quantidade de lives.

24 de Maio de 2019 - 06:37hs

Deputados do PSL fazem lives em redes sociais durante a votação do destaque que retirou o Coaf do Ministério da Justiça, na quarta (23) – Pedro Ladeira/Folhapress

“Está iniciada a votação”, anuncia o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), às 20h15 de quarta-feira (22). O que está em jogo é a retirada do Coaf, conselho que fiscaliza atividades financeiras suspeitas, da alçada do ministro Sergio Moro, na Justiça.

Os governistas querem evitar a mudança para a pasta da Economia. E sacam suas armas: de repente o plenário da Casa se inunda com celulares de todos os tipos e tamanhos, gravando vídeos para redes sociais.

A gravação de Carla Zambelli (PSL-SP), feita ao lado da Major Fabiana (PSL-RJ), teve 32 minutos de duração, 14 mil comentários e 5.000 curtidas. Já a de Hélio Lopes (PSL-RJ) teve 23 minutos, 2.000 likes e 3.400 comentários. O líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), e a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), também estavam online.

Na Câmara, porém, o placar não é tão favorável: por 228 votos a 210, o Coaf foi retirado do ministério de Moro. A medida segue para o Senado.

A votação desta semana é a epítome de um fenômeno que tem tomado os corredores de comissões e do plenário em 2019: o crescimentos dos parlamentares “youtubers”, que preferem falar para suas bases do outro lado da tela a articular com seus pares.

O problema é que tão característica da 56ª legislatura quanto o frenesi das redes sociais é a irritação de parte dos deputados (entre veteranos e novatos, ressalte-se) com a bancada das redes.

Durante a cena da deliberação da MP 870, que decidiu pela transferência do Coaf para o Ministério da Economia, até parlamentares jovens se mostraram chocados com a quantidade de lives.

“Rapaz, quando eu cheguei aqui eu fazia sempre uma livezinha por semana, e o pessoal me achava esquisito”, comenta um tucano da ala dos cabeças-pretas, como são chamados os mais novos do partido. Quando a reportagem diz que ele tinha sido vanguarda nas tendências do Parlamento, ouve como resposta: “Não quero ser vanguardista disso não.”

Outro passa apressado, com uma proposta de emenda para a reforma da Previdência nas mãos. “Não vai fazer live?”, perguntam jornalistas. “Eu não, vou ali pegar assinatura que eu ganho mais”, responde o deputado, membro de um dos partidos de centro.

Os parlamentares levaram até um pito de Maia. “Eu peço só que, daqui para frente, o parlamentar que for à tribuna utilize a tribuna sozinho. A imagem com cinco, seis, sete ou oito parlamentares no entorno não é a imagem que deve ser passada para a sociedade”, afirmou, depois que Filipe Barros (PSL-PR) discursou ladeado por correligionários devidamente aparelhados com seus celulares.

Em discurso inflamado pouco depois, o líder do DEM, Elmar Nascimento (BA), reclamou: “Isso aqui não é um circo em que as pessoas pegam o celular para ficar transmitindo”, disse. Pouco antes, outro líder do centrão, Arthur Lira (PP-AL) também tinha ido ao microfone reclamar dos “internautas de plantão”.

Não são só os governistas, obviamente, que utilizam as redes sociais para interagir com suas bases. Também nesta quarta-feira, a deputada Marília Arraes (PT-PE) criticou o ministro da Educação, Abraham Weintraub, em uma live no Facebook.

 

“Ele não pode vir à Câmara para bater boca com deputado. Isso é papel do Parlamento. Quando um membro do Executivo vem aqui é para prestar contas”, disse para seus seguidores, um fonezinho branco em mãos.

Da mesma maneira, na terça-feira (23), em sessão esvaziada de debates, um deputado esbravejava contra o prefeito de Londrina. Era Boca Aberta (PROS-PR), que chegou a ficar vermelho na tribuna, gritando que o político local beijava bebês e depois “dava um pé na bunda do povo”. Enquanto isso, um assessor filmava todo o discurso. Terminada a bravata, desceu da tribuna calmamente, como se nada tivesse ocorrido.

O teatro de discursos não foi inventado por deputados desta legislatura, é certo. O problema, dizem colegas, é que os novatos do PSL têm atrapalhado o governo do qual fazem parte. O partido tem a segunda maior bancada da Câmara, com 54 integrantes —boa parte deles eleita com base sólida nas redes sociais.

É que há uma velha máxima no Legislativo: oposição é plateia, governo é placar. Isso significa que a oposição deveria usar mais o microfone —e as redes— que o governo. A primeira teria o dever de jogar para a plateia, de denunciar e fazer barulho. Já à base de apoio do presidente caberia articular para conseguir resultados no placar interno, fazendo avançar a agenda do Executivo.

É sobre esse ponto que deputados simpatizantes do governo Jair Bolsonaro (PSL) se dizem exasperados. Um dos principais alvos de reclamações, mesmo dentro do PSL, é o líder do governo na Câmara. O deputado Major Vitor Hugo usou as redes sociais para atacar parlamentares do centrão nas semanas seguintes à votação da medida provisória da reestruturação dos ministérios na comissão especial.

O resultado foi uma irritação dos partidos que os levou a cancelar a votação de MPs na semana passada, ameaçando a reforma —se não for aprovada no Senado até 3 de junho, a medida provisória que dá ao governo a configuração atual perde a validade.

Da mesma maneira, o deputado entrou em choque com o presidente da Casa, Rodrigo Maia, ao divulgar charges em que criticava o Parlamento.

Aliados de Vitor Hugo dizem que o saldo político para ele foi positivo, ainda que as consequências internamente sejam ruins. Antes desconhecido, o parlamentar hoje tem 42 mil seguidores no Twitter —número que, dizem, começou a subir depois que ele adotou postura mais combativa na rede social.

As críticas à postura do PSL não vêm de agora. Desde o início da Legislatura membros de outros partidos que simpatizam com pautas econômicas do governo vêm reclamando que são “atacados gratuitamente”.

Um dos casos terminou no Conselho de Ética: em março, Coronel Tadeu (PSL-SP) chamou o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) de “assassino de policiais” durante sessão sobre a reforma da Previdência na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça). Gerou um furdunço e acabou recebendo uma representação no conselho.

Deputados do PSL admitem que o partido tem que melhorar a articulação política, mas dizem que quando ficam muito tempo sem postar em suas páginas são cobrados pelo eleitorado. Uma deputada governista afirmou que chegou a ser criticada e chamada de petista por ficar dias sem falar sobre a oposição nas redes sociais.

Eles também defendem que, dessa maneira, conseguem estar mais conectados aos anseios do público em geral. “Todos nós aqui estamos recebendo uma enxurrada de mensagens pelo WhatsApp, Facebook e todas as mídias sociais”, disse o deputado Filipe Barros durante a votação do Coaf. “Essa é a realidade: nós devemos satisfação e respeito ao povo brasileiro. Essa é a vontade da população.”

Para a pesquisadora do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições da USP Joyce Luz, o uso exacerbado de redes sociais gera um problema para o Parlamento, onde a tomada de decisão deve ser coletiva. “Se em cada votação o deputado for checar com a sua base, você não vai ter decisão em conjunto e nem chegar em acordo para avançar com as propostas”, diz.

Segundo a pesquisadora, o público em geral tende a achar que as redes sociais o aproximam da política. Isso acontece porque, de um lado, há políticos que não prestam contas para seus eleitores e, de outro, havia pouco interesse na política por parte da população.

Ela alerta, porém, que as redes sociais podem dar uma impressão falsa de democratização. “Quem tem acesso à internet, e à internet naquela votação?”, questiona. “Se o parlamentar achar que só aquelas pessoas que assistem à live naquele momento são a sua maioria, podemos estar excluindo uma parcela do eleitorado na tomada de decisões.”

FOLHAPRESS

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