Mossoró 19 de Novembro de 2019 18:20h
Reportagem especial

Desafios do RN: saúde pública pede socorro

Série especial de reportagens abordará os desafios que enfrentará o(a) candidato(a) eleito(a) para o Governo do Estado nas áreas da saúde, segurança e educação

13 de Setembro de 2018 - 14:14hs

Foto: Sindsaúde/Arquivo 

Da Redação* 

A saúde pública é objeto de reclamação em todo o país. Os atendimentos nessa área são essenciais à população, porém a longa espera por essa assistência é uma realidade severa que faz parte da vida de muitos brasileiros. No âmbito da saúde estadual, o panorama não é diferente e exige atenção do(a) candidato(a) que será eleito(a) para o comando do Governo do Estado. Superlotação de hospitais, falta de insumos, equipamentos sucateados são apenas alguns dos problemas aferidos na saúde estadual, segundo avaliação de acadêmicos da área. Trata-se de desafios que se impõem para a próxima administração e que demandam celeridade na busca por soluções.

Para o diretor da Faculdade de Ciências da Saúde (FACS) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), professor doutor Fausto Guzen, existem vários aspectos que resultam nas deficiências na saúde pública estadual, sendo um ponto crítico o acesso da população aos serviços de saúde, principalmente no âmbito hospitalar, em especial as consultas especializadas.

“Outros pontos determinantes são hospitais lotados, falta de leitos, estrutura precária, falta de equipamentos ou equipamentos sucateados e danificados que não sofrem manutenção periódica, escassez de materiais, falta de insumos, déficit no quadro de pessoal para atender os doentes. Sendo assim, não é incomum observarmos em redes de comunicação a precariedade desse cenário que impacta diretamente o desenvolvimento da saúde pública estadual”, diz o diretor da FACS, salientando que vê com tristeza a presença no RN de casos de hanseníase, doença que, segundo ele, está ligada a questões simples, como saneamento básico (água tratada e encanada, rede de esgoto com estação de tratamento, coleta de lixo com aterro sanitário, controle de animais), a qual já foi superada por muitos gestores.

Fausto Guzen salienta que o aprimoramento do sistema de saúde estadual, para que a população possa ser mais bem assistida, demanda ao governo que se iniciará em 2019 a designação de um gestor de saúde que tenha conhecimento e habilidades para o desenvolvimento da função.

“Primeiramente, acho primordial designar um gestor de saúde que tenha conhecimento e habilidades para o desenvolvimento de tal função. A criação, reestruturação física e tecnológica das unidades de saúde, com a modernização tecnológica; a revisão do financiamento da rede, com aumento progressivo do orçamento destinado às unidades; a melhoria dos processos de gestão; é necessário firmar contratos seguros acompanhando de perto o desempenho de cada etapa e que permanentemente possam ser fiscalizados pelos órgãos competentes, inclusive pelo Ministério Público; a recuperação do quadro de recursos humanos e o aprimoramento das atividades voltadas para a saúde são fundamentais para a prestação de assistência à saúde da população integralmente”, frisa.

A diretora da Faculdade de Enfermagem (FAEN) da Uern, professora e mestra Érica Louise, assinala que, considerando-se o atual sistema de regulação estadual, um usuário do interior potiguar com trauma ortopédico pode levar mais de um ano para receber atendimento cirúrgico em Natal. Ela enfatiza também que gestantes em trabalho de parto submetem-se aos transportes municipais precários, acompanhadas, muitas vezes, apenas de um familiar e de um motorista, aventurando-se pelas estradas em busca de assistência obstétrica em uma verdadeira peregrinação.

Para a diretora da Faen, a falta de estrutura compromete os serviços de saúde no estado. “Um profissional da Secretaria Municipal de Saúde poderia ligar, regulando os casos de urgência para os hospitais estaduais, mas infelizmente os telefones dos serviços estaduais mal funcionam, as urgências apenas chegam à porta de entrada e se deparam com ausência de vagas, estrutura física, material e recursos humanos insuficientes para atendimentos”, pontua.

Segundo Érica, a precarização capilarizada por todo o RN deságua na capital do estado, superlotando os hospitais de referência, ultrapassando toda e qualquer pactuação da Rede de Assistência à Saúde do RN. “Faltam leitos de UTI, formam-se filas de espera infindáveis para a realização de exames e cirurgias, faltam medicamentos, faltam insumos, falta agilidade, falta eficiência, falta dignidade para o potiguar peregrino em busca de seus direitos como usuário do SUS”, acrescenta.

DESAFIOS

Dentre os principais desafios do(a) próximo(a) candidato(a) eleito(a) está a implementação do último ano do Plano Estadual de Saúde, 2019, pontua a diretora da Faen. Érica Louise salienta que a nova administração deverá realizar o esperado de qualquer planejamento em fase de conclusão, que é a avaliação da execução das atividades, monitoramento e, principalmente, comprometer-se com a continuidade das ações estratégicas. A professora ressalta ainda que o(a) próximo(a) gestor(a) a comandar o Executivo estadual também terá como desafio valorizar e compreender a Uern como uma ferramenta para ações vinculadas a planejamento estratégico.

“A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte é uma instituição de grande valor para o RN, está presente em 16 municípios, comemorando neste ano de 2018, em seu jubileu de ouro, 50 anos de contribuição para o desenvolvimento econômico e social do estado. Como desafio, o próximo gestor estadual precisa valorizar e compreender a Uern como uma ferramenta para implementação de planejamento estratégico. Principalmente no interior do estado, pois o Rio Grande do Norte precisa ser gerido e considerado em toda a sua grandeza e complexidade”, diz.

Foto: Sindsaúde/Arquivo

ACESSO E EFETIVIDADE

Acesso e efetividade são fatores que precisam ser assegurados, no âmbito da rede de assistência à saúde, pela Secretaria de Estado de Saúde Pública, na perspectiva da diretora da Faculdade de Enfermagem. Ela salienta que a próxima gestão necessita ampliar o campo de visão para a gestão estratégica, colocando em prática ferramentas que “possibilitem uma saúde de melhor qualidade, mais participativa, considerando todos os seus atores sociais, e principalmente regionalizada, abrangendo realmente todo o Rio Grande do Norte, com controle e transparência”.

Ainda na opinião da diretora da Faen, experiências exitosas em gestão de saúde podem contribuir para o aperfeiçoamento da saúde pública estadual. “O RN pode aprender muito com experiências exitosas de gestão em saúde no Brasil, avaliando os casos de sucesso dos estados que possuem bons Índices de Desenvolvimento do SUS (IDSUS); realizando investimentos e seguindo tendências estratégicas como a Gestão Inteligente no Setor Saúde, que utiliza bases de dados unificadas, interligando toda a rede, Unidades Básicas de Saúde, hospitais, farmácias, laboratórios etc., permitindo que as informações dos usuários sejam compartilhadas na perspectiva da integralidade e continuidade do cuidado, de maneira racional, sistêmica, regulada e harmônica”, conclui.

CONDIÇÕES DE TRABALHO

Simone Dutra, vice-coordenadora-geral do Sindicato dos Servidores em Saúde do RN (SINDSAÚDE-RN), afirma que, atualmente, péssimas condições de trabalho pesam sobre o funcionalismo estadual que atua nos serviços de saúde. Péssimas condições que, segundo Simone, também estão associadas à falta de servidores para a implementação do trabalho de assistência à população.

“Hoje, há uma deficiência de cerca de 3 mil servidores, assim como a falta de materiais e insumos básicos, como é de conhecimento de todos. Muitas vezes, os servidores utilizam sua remuneração para ter um mínimo de dignidade no trabalho e, também, não ver os pacientes à míngua. Os servidores da saúde trabalham em ambientes insalubres pela natureza do trabalho, que lida com riscos biológicos, químicos e físicos. Porém, a falta de uma política de saúde e segurança no trabalho leva a níveis altos de adoecimento e mesmo morte”, diz.

Para a vice-coordenadora-geral do Sindsaúde, o (a) candidato(a) eleito(a) terá de observar alguns fatores na implementação do trabalho que vise à melhoria da assistência à população no âmbito da Saúde estadual.

. “O candidato eleito terá de enfrentar uma luta nacional pela anulação da Emenda Constitucional 95, que congela os gastos com os serviços públicos por 20 anos; garantir a aplicação dos recursos financeiros para suprir as necessidades de manutenção e investimento na saúde; convocar os concursados para suprir a necessidade de pessoal; garantir uma gestão profissional e democrática dos serviços de saúde. A saúde não pode ser moeda de troca eleitoral; e implantar a regionalização dos serviços de saúde, de forma a integralizar e universalizar a saúde a partir dos demais entes federativos, como os Municípios e a União”, finaliza.

*Reportagem publicada na edição de julho da Revista Acontece

Faça seu comentário

Canal Acontece RN

VT institucional - Portal Acontece