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Médico usou o próprio sêmen para engravidar várias pacientes nos EUA

Ele oferecia às mulheres o sêmen de doadores anônimos que se pareceriam com seus parceiros.

03 de Setembro de 2018 - 07:33hs


Donald Cline em entrevista para uma TV americana: não se sabe quantas mulheres ele engravidou usando o próprio esperma
Foto: Reprodução de TV

Para casais já quase sem esperanças de terem filhos, que não podiam conceber por alguma razão médica, Donald Cline era uma espécie de salvador. Ele oferecia às mulheres o sêmen de doadores anônimos que se pareceriam com seus parceiros. Muitos homens e mulheres procuraram o médico em sua clínica de fertilidade na região de Indianápolis nos anos 1970 e 1980. Eles tiveram filhos que cresceram e depois tiveram seus próprios filhos.

O que os casais não sabiam, porém, é que, em inúmeras ocasiões, Cline não estava usando o esperma de doadores anônimos, mas sim o seu próprio. Agora, ex-pacientes e seus filhos estão se questionando: quantas mulheres ele enganou? De quantas crianças ele é o pai? E o mais desconcertante: por que ele fez isso?

As autoridades que estão investigando o médico confirmaram por meio de exames de DNA que duas mulheres são suas filhas biológicas. Através do “23andMe” e outros sites de testes genéticos similares, 36 meio-irmãos destas mulheres já foram encontrados, conta Jacoba Ballard, 38 anos, uma das filhas biológicas. E ela acredita que o número seja ainda maior.

 

Em alguns casos, afirmam os promotores, Cline chegou a dizer aos casais que estava utilizando o sêmen dos maridos, mas usou o seu.

— Definitivamente, é dramático em diferentes níveis ver como isso perturba minha mãe. Algumas coisas passam pela minha cabeça: “Sou do jeito que sou sob algum aspecto porque ele é do jeito que é?”. Isso mexe com a sua mente — conta Matt White, um dos meio-irmãos. — Tem horas que fico com muita raiva. Estou confuso. Fico me perguntando apenas: “Por quê?”.

Cline não retornou as ligações pedindo respostas sobre o caso. Peter Pogue, seu advogado, disse que ele “continua a se defender nos fóruns apropriados”, mas se recusou a responder a mais perguntas.

Em dezembro, o médico se declarou culpado de duas acusações de obstrução de Justiça, reconhecendo ter mentido a investigadores quando negou as denúncias. O número exato de quantas vezes fez isso ainda é desconhecido. Ele foi condenado a uma sentença de 365 dias na cadeia, que foi suspensa.

Por meio de um advogado, Cline entregou sua licença médica na última semana, e o conselho médico estadual o proibiu de tê-la de volta. Ele se aposentou em 2009, e sua licença havia expirado em 2017, de acordo com os promotores.

INVESTIGAÇÃO DESDE 2014

A investigação do caso começou entre 2014 e 2015, quando um grupo de mulheres, incluindo Jacoba, registrou queixa contra ele na procuradoria-geral de Indiana, cujo escritório investiga reclamações de pacientes contra médicos.

Elas dizem na queixa que, pesquisando suas origens, descobriram por meio de um site de testes genéticos que eram meio-irmãs, e que todas foram concebidas com o material do consultório de Cline.

O médico tinha dito previamente a elas que havia usado o sêmen de residentes anônimos do hospital e que só usava o mesmo doador em no máximo três gestações. Cline ainda afirmava que todos seus registros haviam sido destruídos e que não lembrava detalhes adicionais, de acordo com a queixa.

Por meio do “23andMe”, as mulheres descobriram que existiam oito meio-irmãos, contradizendo a informação de que o esperma doado só era usado em até três casos. Investigações posteriores em sites de testes genéticos mostraram que o DNA estava ligado a parentes de Cline.

Ele inicialmente negou ter usado o próprio sêmen nas inseminações, enganando o escritório da procuradoria-geral. Depois admitiu sua culpa.

O caso e a saga por respostas têm sido dificultados pela lei estadual de Indiana. Segundo Jacoba, ela também informou que havia encontrado outros meio-irmãos às autoridades policiais. Embora o Escritório da Procuradoria do Condado de Marion, em Indianápolis, tenha acusado Cline de enganar os investigadores, não existem leis na região que criminalizem o médico por ter utilizado o próprio esperma para inseminar pacientes.

Na Virgínia, em 1992, um especialista em fertilidade foi condenado em 52 acusações de fraude e perjúrio pelo mesmo tipo de conduta.

O escritório da Procuradoria , em resposta, informou simplesmente que “a legislação de Indiana tem provisões diferentes” das do caso da Virgínia. O órgão não respondeu se Cline foi investigado por fraude, mas disse que ele não era mais alvo de uma investigação criminal.

Jacoba disse que a falta de indiciamentos por crimes mais graves é “desanimadora”. Ela e White agora pressionam os parlamentares estaduais a aprovarem uma lei que torne crime o fato de médicos usarem o próprio sêmen em casos do tipo.

— Quero que as lei mudem, que os médicos possam ser responsabilizados — disse Jacoba. — Quanto a ter paz novamente? Acredito que nunca mais terei.

Os dois continuam a checar sites como o “23andMe” para ver se outros meio-irmãos aparecem. Alguns querem ser contatados, outros, não. Jacoba disse que estava tentando entrar em contato com todos para explicar a história.

— Você simplesmente revive este pesadelo, todas as vezes que encontra alguém — disse.

O GLOBO

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