Mossoró 16 de Julho de 2019 23:36h
Reportagem especial

SOS Abelhas

Em parceria com o Corpo de Bombeiros, projeto de extensão da Ufersa trabalha na remoção e manejo de enxames de abelhas africanizadas

17 de Setembro de 2018 - 12:51hs

Professora Kátia Gramacho em apiário, na Fazenda Rafael Fernandes (Foto: Cedida)

Da redação*

As chamadas de emergência para coleta de enxames de abelhas africanizadas em Mossoró são objeto de ações do Corpo de Bombeiros e do “SOS Abelhas”, projeto de extensão da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA). A incidência de enxames no perímetro urbano da cidade progrediu nos meses de maio, junho e julho deste ano, ampliando o total de atendimentos destinados ao recolhimento desses insetos.

No início do mês agosto, o Corpo de Bombeiros de Mossoró ainda registrava de 8 a 10 chamadas diárias, solicitando a remoção de enxames. Os atendimentos predominantes se referiam às abelhas africanizadas.

“No período entre junho e julho deste ano, houve um dia em que contabilizamos 30 chamadas com pessoas requerendo a retirada de enxames. Atualmente (início do mês de agosto), registramos de 8 a 10 chamadas por dia. Elencamos prioridades e conseguimos realizar de 6 a 8 atendimentos diariamente”, declarou o capitão Neves Monteiro, chefe da Divisão Operacional do 2° Subgrupamento do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte (CBMRN), realçando que as demandas de recolhimento de enxames são distribuídas entre a corporação e o “SOS Abelhas”.

A parceria do “SOS Abelhas” com o Corpo de Bombeiros associa dois fatores: a força operacional dos oficiais do CBMRN e o conhecimento técnico da universidade, cujos componentes atuam de forma voluntária, segundo explica a coordenadora do projeto “SOS Abelhas”, professora-doutora Kátia Gramacho, que também é responsável pelo setor de Apicultura da Ufersa e pelo Núcleo de Capacitação Tecnológica em Apicultura (NCTA).

Segundo a professora, a dispersão de enxames pela área urbana de Mossoró está vinculada à mudança ambiental propiciada pelas chuvas deste ano e, provavelmente, pela diminuição de áreas verdes ao redor da cidade.

“Passamos por um período de quase sete anos de seca, em que muitos apicultores da região perderam grande quantidade de colmeias por abandono e fome. A melhora do clima desde 2017 e a chegada das chuvas neste ano resultaram em mais disponibilidade do fluxo de alimento (flores), com abundância de flores abertas na natureza, favorecendo a produção de néctar e pólen. Em face desse cenário, as abelhas africanizadas começaram a trabalhar incessantemente. As colmeias ficaram mais fortes e deram início ao processo de enxameação”, pontua Kátia.

A enxameação, explica a coordenadora do “SOS Abelhas”, é um processo natural pelo qual as colônias se reproduzem, fundando um novo ninho.

“Então, ocorre a saída de um grupo de operárias, acompanhado por uma abelha-rainha velha e levando um suprimento de mel, para a construção dos favos e para a sua alimentação, à procura de um local adequado de nidificação, a fim de estabelecer a sua nova moradia. A colmeia pode soltar um só enxame (primário) com a rainha da colmeia ou mais de um (secundários), estes com rainhas virgens. Causa prejuízos, porque descontrola a produção e, por esse motivo, deve ser evitada. A enxameação não deve ser confundida com emigração, que acontece quando todas as abelhas abandonam sua colmeia, deixando-a totalmente vazia”, acrescenta a professora.

Ao escolherem o seu novo ponto de nidificação – local onde a colônia de abelhas vai se instalar –, que pode ser tubulações, caixas de madeira ou de papelão, cavidades em postes, paredes, árvores, latas velhas, pneus, cupinzeiros, arbustos, tambores etc., as abelhas podem se posicionar de maneira a provocar acidentes. “Por isso, considero importante usarmos caixas iscas para capturar enxames”, frisa a coordenadora do “SOS Abelhas”.

Kátia Gramacho conta que, nos últimos meses, a incidência de enxames de abelhas foi verificada em toda a cidade e em áreas adjacentes. Segundo ela, os registros se referem a abelhas do gênero Apis – abelhas africanizadas, um poli híbrido resultante do cruzamento de subespécies europeias com as abelhas africanas, portanto chamadas de abelhas africanizadas, conhecidas pela população como “abelhas Europa ou italianas”.

Enxames são colocados em caixas padrão ou núcleos (Foto: Cedida)

“Às vezes, quando chegamos ao local da ocorrência, encontramos também vespas (maribondos). Quando conseguimos capturar os enxames, eles são alocados em caixas padrão e vão para uma área de quarentena, onde as abelhas ficam sob observação. Depois, levamos para a Fazenda Experimental Rafael Fernandes, onde há o Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura e o Núcleo de Capacitação Tecnológica e Apicultura da Ufersa”, frisa a professora. Na fazenda, as colmeias são encaminhadas para apiários, onde são monitoradas e utilizadas para projetos de pesquisa e aulas práticas.

ORIENTAÇÕES

Questionada sobre como a população deve proceder ao verificar a existência de um exame, Kátia Gramacho orienta manter distância e não mexer no aglomerado de insetos. A professora salienta ainda a importância de manter contato com o Corpo de Bombeiros.

O capitão Neves Medeiros, do CBMRN, também preconiza que não se deve mexer no enxame, uma vez que as abelhas podem ficar agressivas. “Para solicitação de recolhimento de enxames e em casos de os insetos ficarem agressivos, a população deve ligar para o 193, do Corpo de Bombeiros”, enfatiza.

MEIO AMBIENTE

A preservação das abelhas é fundamental para a polinização das espécies vegetais e o equilíbrio dos ecossistemas, pondera Kátia Gramacho. Ela assinala que, ao procurar néctar e pólen nas plantas, as abelhas realizam a polinização.

“Esse processo é indispensável para o planeta, visto que cerca de 85% das plantas com flores que estão nas matas e florestas e 70% das culturas agrícolas dependem dos polinizadores. Também é importante para a nossa alimentação, uma vez que aproximadamente dois terços dos alimentos ingeridos por nós, seres humanos, são produzidos com a ajuda da polinização das abelhas.”

OPERACIONALIDADE

O projeto “SOS Abelhas” foi criado em 2015, pelo professor titular aposentado Lionel Segui Gonçalves, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP/USP), na época professor visitante sênior da Ufersa. Atualmente, Lionel é pesquisador voluntário da Universidade Federal Rural do Semiárido e colaborador do “SOS Abelhas”.

Hoje, o projeto é coordenado pela professora Kátia Gramacho e tem vice-coordenação do professor-doutor Carlos Eduardo Alves Soares. Conta ainda com a atuação de dois bolsistas de extensão, dois estudantes voluntários e do aluno de doutorado Ricardo Gonçalves.

Kátia Gramacho trabalha no projeto de fixação de um convênio de cooperação técnica entre a Ufersa, Corpo de Bombeiros e outras entidades, como a Associação Potiguar de Meliponicultores e Meliponicultoras (AMEP), Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), Guarda Civil Municipal de Mossoró, Companhia Independente de Proteção Ambiental (CIPAM-PMRN) e Prefeitura Municipal de Mossoró. A finalidade é estruturar as ações de recolhimento e manejo das abelhas.

 

Integrante do ‘SOS Abelhas’ realiza pesquisa sobre enxameação em perímetro urbano

 

Ricardo Gonçalves durante remoção de enxame (Foto: Ricardo Gonçalves)

Integrante do projeto “SOS Abelhas”, o estudante de doutorado Ricardo Gonçalves já realizou inúmeras remoções de enxames em Mossoró. Esses recolhimentos fundamentam pesquisa de Ricardo que pretende responder vários questionamentos sobre o comportamento de nidificação e a dinâmica de enxameação das abelhas em perímetro urbano.

“Esperamos que os conhecimentos gerados por essa pesquisa sirvam de base, para que cidades que eventualmente registrem problemas semelhantes, com alto número de ocorrências envolvendo abelhas, montem programas de coleta de enxames e de prevenção a acidentes com esses insetos”, declara.

CAPTURAS

Antes da oficialização do projeto “SOS Abelhas”, Ricardo Gonçalves começou a realizar capturas desses insetos por conta própria. “Ainda em 2014, quando eu cursava o mestrado, comecei a realizar capturas de abelhas por conta própria, quando um amigo ou vizinho, por exemplo, sabendo que eu trabalhava com abelhas, me chamava para retirar um enxame que havia se instalado em sua casa. À medida que as pessoas ficavam sabendo, a demanda foi crescendo, então fui sendo cada vez mais solicitado.”

O estudante conta ainda que, em face dessa conjuntura, o professor-doutor Lionel Segui Gonçalves, seu orientador, percebeu que estavam diante de uma oportunidade de estudar os aspectos relacionados à enxameação das abelhas na região.

“Assim, o professor Lionel me fez a proposta para trabalhar com esse tema no doutorado. E eu, claro, topei, entusiasmado, visto que sempre foi algo que gostei muito de fazer. Um colega, dr. Dayson Castilhos, investiu do próprio bolso, comprou uma caminhonete e começamos a atender. Logo, o projeto ‘SOS Abelhas’ em Mossoró ganhou muita visibilidade e foi bem aceito pela população. Hoje, está cadastrado na Ufersa como projeto de extensão e de pesquisa”, finaliza.

O “SOS Abelhas” também foi idealizado, segundo a sua atual coordenadora, professora Kátia Gramacho, para a criação de apiários, com foco na realização de pesquisas, e também a partir da preocupação com a possibilidade de acidentes em decorrência da presença de enxames em locais inadequados.

*Reportagem publicada na edição de agosto da Revista Acontece

 

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