Mossoró 20 de Maio de 2019 13:44h
Reportagem especial

UERN: Lutas e conquistas

Histórico da universidade mostra embates e debates sobre autonomia financeira, melhorias na estrutura física, atrasos salariais, privatização, entre outros temas; instituição aponta conquistas no campo do ensino e na formação de profissionais

19 de Setembro de 2018 - 09:52hs

Da redação*

Sessenta e sete cursos de graduação. Admissão de 2.400 alunos por ano. Essa é a dimensão da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), criada em 28 de setembro de 1968; portanto, prestes a celebrar 50 anos. Além da notabilidade no ensino, a instituição também se encontra inserida em um contexto de sucessivas greves, de deficiências estruturais e, mais recentemente, atrasos salariais dos professores. Em face desse cenário, quais são as perspectivas para a instituição?

A última greve enfrentada pela Uern durou 127 dias e, segundo a presidente da Associação dos Docentes da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (ADUERN), Rivânia Moura, foi motivada pela constância dos atrasos salariais. “É claro que os atrasos salariais foram o estopim da última greve, mas as reivindicações permanentes de luta pela universidade também foram apresentadas na pauta do movimento”, salienta.

Questionado sobre o que tem feito para que a Uern se depare com um cenário mais satisfatório, o reitor da instituição, Pedro Fernandes, enaltece o papel social e de formação da universidade, além de sustentar que tem buscado reunir a comunidade acadêmica em defesa da Uern.

“Olha, a Uern é mais forte do que muita gente tenta dizer por aí. Somos uma instituição em que 89% dos alunos estudaram o ensino médio em escolas públicas, e formamos professores para atender às escolas nas cidades mais longínquas do estado. Mas, respondendo a sua pergunta diretamente, eu diria que nosso papel em todo esse processo de greves foi no sentido de atuar como intermediário entre categorias e Governo. Sempre estivemos presentes em todas as audiências e fizemos a articulação que garantiu os encontros. Com o fim da greve, estou intensificado na luta para unir toda a comunidade acadêmica em defesa da nossa universidade. Unidos, somos imbatíveis”, declara.

Ainda sobre as sucessivas greves, Pedro Fernandes diz não acreditar que esse fator diminua o interesse de estudantes pela instituição. “Alunos de 118 municípios do Rio Grande do Norte se inscreveram em cursos da Uern. Tivemos inscritos de mais de 20 estados. A Uern tem dificuldades, mas tem muitos resultados positivos e, por isso, é referência”, frisa.

A titular da Secretaria de Estado da Educação e da Cultura (SEEC), Cláudia Santa Rosa, diz que as paralisações são indesejadas, mas também afirma respeitar a opção daqueles que consideram as greves como caminho para alcançar suas reivindicações.

“As greves são indesejadas. Tanto da nossa parte quanto daqueles que fazem a Uern. Entendemos que, quando a instituição opta por fazê-la, é um movimento legítimo daqueles que acreditam que é esse o caminho para resolver suas necessidades e nós respeitamos. Entretanto, essa escolha nos preocupa, quando as questões a serem solucionadas não dependem de nossa vontade, mas de uma crise econômica nacional, que também atinge o Estado”, pondera.

PRIVATIZAÇÃO E PRECARIZAÇÃO

A presidente da Aduern se posiciona categoricamente contra uma eventual tentativa de privatização da universidade, alegando que a instituição representa apenas 3% do orçamento do Estado.

“Não se pode dizer que 3% do orçamento é oneroso para o Estado. Quando se fala isso, sugere-se a entrega da universidade para o setor privado. É preciso destacar que a educação é um dos setores mais rentáveis atualmente. Nós defendemos que a Uern se mantenha pública e de referência. Quando se fala só no suposto peso que a instituição representa, despreza-se seu papel social”, enfatiza.

Rivânia Moura, presidente da Aduern, diz que a universidade atravessa um processo de precarização (Foto: Assessoria/Aduern)

Rivânia salienta, ainda, que a Uern atravessa um processo de precarização e que há dez anos o orçamento para investimentos e custeio é praticamente o mesmo. “Mesmo assim, tem a questão do contingenciamento. Ou seja, nem tudo o que foi orçado foi executado. Isso faz que as obras não andem, que não haja investimentos em estrutura e não tenha manutenção”, expõe.

Para o reitor Pedro Fernandes, “esse assunto de privatização não faz sentido”, além de ser “inviável”. Ele ressalta que, quando divulgam esse tipo de notícia, é sempre em um momento de crise, para desviar o foco. “O desembargador Cláudio Santos, que levantou essa ideia, inclusive, já reviu a posição dele. Entendo essa questão como um assunto superado”, diz.

Indagada sobre se é possível afirmar que a Uern atravessa um processo de precarização, Cláudia Santa Rosa respondeu que todas as áreas estão passando por um momento de contenção de despesas e reduzindo o volume de investimentos com recursos próprios do Estado. “O Governo do RN compreende a importância da Uern para o Rio Grande do Norte e tem destinado todos os recursos possíveis para que o Estado invista no ensino superior”, declara.

No tocante à privatização e sobre se a SEEC defende a manutenção da condição atual da universidade, ou seja, integralmente pública, Cláudia Santa Rosa salienta que não há, da parte do Governo do Estado, nenhuma intenção em privatizar a Uern. “Isso já foi amplamente divulgado pelo governador Robinson Faria, desde a primeira vez que o assunto surgiu. Dessa forma, não há motivos para discussão.”

O Executivo Estadual pretende fortalecer a universidade? A secretária de Estado da Educação diz que a intenção é sempre fortalecer os serviços públicos e que nenhum governo trabalha para o contrário.

“O fortalecimento da Uern passa por diversas frentes, mas, no momento, é necessário cautela e compreensão quando se trata de investimentos novos e mais arrojados. Nós temos um plano estadual de educação e, como temos uma universidade estadual, também há metas e estratégias relativas ao ensino superior. Nós também estamos chamando a atenção da Uern, com relação às solicitações do Conselho Estadual de Educação quanto à regularização de cursos da instituição, que é mais uma forma de fortalecer a universidade”, frisa.

FEDERALIZAÇÃO

Rivânia Moura conta que quando a Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), hoje atual Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA), estava em processo de federalização, a mesma temática também foi direcionada à Uern, mas não avançou. “Agora, esse tema [federalização] surgiu do nada, como se fosse: joga aí para ver o que e que dá”, disse a presidente da Aduern, realçando também que a Universidade Estadual da Paraíba, em Campina Grande, recentemente se deparou com o surgimento desse assunto, no campo da especulação.

Ela acrescenta que essa temática da federalização no que se refere à Uern pode ter despontado “com o propósito de abafar outras perspectivas, como a privatização”. Para ela, existe um panorama de cortes perpetrados pelo Governo Federal, fator que tornaria inviável a federalização. “O contexto de redução de investimentos nas universidades federais mostra um cenário desfavorável à federalização da Uern. As universidades estão passando por cortes financeiros”, pontua.

Uma possível federalização da Uern, de acordo com Rivânia Moura, também atingiria a estabilidade dos servidores da instituição, que não estaria assegurada.

AUTONOMIA

A Aduern defende a autonomia financeira da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, justificando que possibilitará planificar o crescimento da instituição acadêmica. No entanto, segundo a associação, o projeto ainda não avançou na esfera estadual.

Pedro Fernandes, reitor da UERN, fala sobre o futuro da instituição

ECONOMIA

O reitor Pedro Fernandes salienta, não só o significado econômico da Uern para Mossoró, mas o que a instituição representa de modo mais abrangente. “A Uern representa tudo. Os salários dos técnicos e professores movimentam a economia, os aluguéis de imóveis para os alunos que vêm de outros municípios também trazem dividendos. A Uern forma praticamente 100% dos professores da rede municipal e, desde os últimos anos, passou a entregar médicos. Contribuímos formando profissionais em todas as áreas do conhecimento e colaboramos na pesquisa e extensão. Toda a gestão municipal tem em seus quadros professores e técnicos da Uern. A universidade é o coração de Mossoró e região”, enfatiza.

DESAFIOS E FUTURO DA UERN

Para o reitor Pedro Fernandes, são vários os desafios da Uern. Ele diz que a comunidade acadêmica está avançando em vários setores e consolidando a universidade como uma instituição socialmente referenciada. “Hoje, a Uern está consolidada academicamente e o nosso maior desafio sempre será ampliar as nossas estruturas físicas para ofertar melhores espaços para os nossos alunos”, diz.

Mesmo diante de um cenário de dificuldades, Pedro Fernandes finaliza, afirmando que o futuro da Uern é seguir no caminho da inclusão social de alunos pobres do interior do estado e da zona norte de Natal. “Nosso papel é levar o ensino superior aonde ele não chega. O futuro da Uern já tem bases no presente: a realização dos sonhos dos mais humildes”, conclui.

UERN EM NÚMEROS

• Criada em 28 de setembro de 1968, pela lei municipal 20/68, a Uern nasceu com o nome de Universidade Regional do Rio Grande do Norte (URRN);

• Está presente hoje, de forma direta, com seus campi avançados e núcleos de educação superior, em 17 cidades do RN;

• São 6 campi, incluindo o campus central, em Mossoró, e 11 núcleos. Os campi avançados localizam-se em Assú, Pau dos Ferros, Patu, Natal e Caicó;

• Possui diversos cursos de pós-graduação, frequentados por mais de 1.000 estudantes, 12 cursos de mestrado, 2 cursos de doutorado, além da oferta de residência médica em Medicina de Família e Comunidade, residência em Ginecologia e Obstetrícia e uma residência multiprofissional;

• Na área de pesquisa, a instituição conta 64 grupos de pesquisa cadastrados, envolvendo 430 professores-pesquisadores.

 

*Reportagem publicada na edição de abril/2018 da Revista Acontece

 

 

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