Mossoró 17 de Julho de 2019 00:00h
Reportagem especial

Uma trajetória de dedicação e comprometimento

Casados há 57 anos, Zélia e Elder Heronildes se destacam pela atuação em instituições de relevo do RN

12 de Setembro de 2018 - 09:01hs

Fotos: Marcelo Bento 

Uma trajetória edificada sobre os alicerces da dedicação e comprometimento. Assim, é possível definir o caminho delineado por Zélia e Elder Heronildes, casal norte-rio-grandense que se notabiliza no estado pelo trabalho já empreendido em instituições de relevo e pela participação em associações vinculadas à literatura e às atividades sociais.

Visitamos o casal e pudemos conhecer um pouco das histórias e do lar que os acolhe. Ao chegarmos à casa de Zélia e Elder, nos deparamos com um lindo jardim que envolve esse lar que resguarda tantas memórias. Acomodamo-nos na área coberta da casa, que também funciona como sala. O ambiente nos deixou à vontade para dialogarmos e desbravarmos as vastas experiências de Zélia e Elder.

Na parede dessa área/sala, encontramos um registro importante que expressa o valor atribuído pelo casal à construção da família. Nesse registro, datas memoráveis, como o início do namoro, nascimento dos filhos e netos e, claro, sobre a longeva união, que completou 57 anos no dia 25 de março. Trata-se da força de um casamento que atravessou fases de muita responsabilidade e zelo pela família.

Após aguardarmos um pouco, somos recebidos por Zélia Heronildes. Na vivacidade de seus 78 anos, Zélia se apresenta elegante para a entrevista e nos cumprimenta. Em uma das mesas da área/sala, álbuns de fotos traduzem os laços de afeto que envolvem essa família. Iniciamos uma conversa informal e, logo, aparece Elder Heronildes, expressando saúde e fortaleza no auge dos seus 85 anos.

Fatos da história despontam a partir do desenvolvimento da conversa e nos reportam momentos desafiadores, como a ditadura e as dificuldades da atual Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) na década de 1970. Mas, Zélia e Elder não se restringem a falar sobre suas atuações na sociedade. Eles abrem o coração, rompendo parcialmente com a formalidade tão comum às ocasiões das quais participam.

A entrevista é seguida por uma visita às dependências da aconchegante moradia. Ao percorrermos alguns cômodos, detalhes da vida desse longevo casal nos são revelados. Próximo à sala de jantar, por exemplo, o “Armazém Zélia Macêdo” evidencia-se como um espaço onde os dois recebem amigos. Deparamo-nos, também, com uma expressão de fé. Um altar com ícones do catolicismo, antes pertencente à mãe de Elder, se agrega à composição da casa, demonstrando respeito à crença que permeia essa família.

Uma coleção de chapéus também chama atenção. Os chapéus pertencem a Elder e mostram um viés mais despojado aderido por ele nos momentos em família e de lazer.

A história de Elder e Zélia Heronildes consiste em um enredo permeado pelo companheirismo, trabalho contínuo e, sobretudo, pelo amor. Amor entre o casal. Amor à literatura e suas respectivas associações, que buscam projetar a excelência e a contribuição intelectual desse casal potiguar.

Em homenagem a Elder, seu presidente de honra e titular da cadeira 12, a Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Mossoró (ACJUS) realizou, na segunda-feira, dia 10 de setembro, uma sessão solene em reverência ao aniversário desse mossoroense de atuações importantes em sua cidade.

 

 

Zélia Heronildes: amor à família e projeção na sociedade

 

Nascida em Martins, no dia 25 de janeiro de 1940, Zélia Heronildes se transferiu para Mossoró em 1949. Nessa cidade, construiu a sua vida, ao lado de Elder Heronildes, com quem está casada desde 25 de março de 1961. Zélia lembra-se com alegria do início da relação e rememora as condições definidas pelo pai, Francisco Bezerra de Macêdo, para a concretização do matrimônio.

“Elder era líder estudantil e estava em busca de votos para se eleger presidente do Centro Estudantal Mossoroense, e eu tinha um primo que trabalhava com ele. Já afeiçoado por mim, Elder começou a entregar jornais em minha casa, só para que tivesse a oportunidade de me ver. O princípio do namoro aconteceu na noite de São João do ano de 1959, dia reservado por nós para dançarmos quadrilha”, conta.

O noivado não demorou a realizar-se e aconteceu em um momento especial – a noite de Natal de 1959. “Elder foi até minha casa pedir a minha mão em noivado. Na ocasião, meu pai afirmou que me concederia em noivado, mas pediu que casássemos logo”, frisa Zélia Heronildes. E lá se vão 57 anos de convivência. Convivência que, segundo Zélia, também exigiu abdicação. “Em uma relação tem que existir amor. Em nossa história como casal, houve espinhos, mas tivemos e temos amor mútuo e sempre conseguimos superar as dificuldades. Para mim, a união conjugal, em determinados momentos, exige renúncia. A mulher precisa saber renunciar”, expressa.

Como fruto desse amor, dois filhos: George e Disraeli, hoje, com 56 e 53 anos de idade, respectivamente. Ambos moram em Natal e estão sempre na lembrança de Zélia Heronildes. “Apesar de já serem independentes, minha preocupação de mãe permanece e, para mim, eles continuam sendo os meus meninos”, declara. George é pai de Thalys, 28 anos, e Disraeli, de Valentino, 8 anos. “Não vejo meus netos com muita frequência, mas quando os encontro, é, sem dúvida, um momento de muito afeto”, declara a avó.

ATUAÇÕES

O trabalho na imprensa está associado à biografia de Zélia Heronildes. Em 1976, Zélia inicia sua atuação no âmbito dos meios de comunicação, ao assinar, até dezembro daquele ano, a coluna “Zélia Informa”, do jornal “O Mossoroense”. Tratava-se de uma coluna voltada aos enfoques socioculturais de Mossoró e região. Zélia também colaborou nos jornais “Gazeta do Oeste”, “O Poti”, “Diário de Natal” e “Jornal de Natal”, por meio de colunas sociais, e esteve à frente de um programa na Rádio Libertadora.

“Para o jornal O Mossoroense, fui convidada pelo jornalista Dorian Jorge Freire e aceitei o convite. Posteriormente, recebi um convite de Canindé Queiroz e comecei a assinar uma coluna social na Gazeta do Oeste. Considero muito importante ter contribuído para levar informação aos leitores potiguares”, declara Zélia.

Zélia Heronildes é formada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Além de ter estudado na Uern, Zélia pôde trabalhar na instituição, na condição de chefe de cerimonial.

“Cumpri minhas responsabilidades de mãe com muita dedicação. Mas, chegou um momento em que percebi a excelência e o progresso do meu marido e decidi que era hora de elevar meus conhecimentos e me assemelhar a Elder. Então, estudei e fui aprovada para ingresso na Uern”, salienta.

Sobre o progresso da população feminina, Zélia afirma que as mulheres devem, sim, ocupar espaços na sociedade, mas sem ter a pretensão de sobrelevar o marido. “A mulher tem o direito de crescer, mas acredito que não deve querer ser mais do que o marido; antes, deve escolher estar ao lado dele”, pondera.

Zélia integra notórias instituições, como a Maçonaria, da qual é madrinha; o Clube das Samaritanas, da Loja Maçônica Sebastião Vasconcelos; o Lions Clube Mossoró-Centro, do qual foi presidente de 1999 a 2000; e a Academia Literária e Artística das Mulheres Potiguares. Também ministrou curso de boas maneiras durante cinco anos, no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), e aulas de Moral e Cívica, no Colégio Diocesano Santa Luzia.

LITERATURA

No ano passado, Zélia Heronildes lançou seu primeiro livro – “A Crônica Social do Meu Tempo”. Também em 2017, Zélia apresentou seu segundo trabalho, intitulado de “Maria Sylvia” – A Vida em Poesia. “Fiquei feliz com a produção dos dois livros. Foi um sonho que se realizou. As academias das quais participo têm me incentivado a produzir”, conta Zélia, que ocupa a cadeira 25 da Academia de Letras e Artes de Martins (ALAM) e a cadeira 31 da Academia de Ciências Jurídicas e Sociais (ACJUS).

Zélia tem ainda participação em coletâneas: “Perfil Biográfico do Cerimonial Brasileiro” (1° volume), organizado por Marcílio Reinaux, em 2003, que na época era presidente do Comitê Nacional do Cerimonial Público; “Mulheres Especiais”, de Anna Maria Cascudo Barreto, em 2015; e “Por isso não provoque”, de Marilene Paiva e Rafaella Costa, em 2017.

Residência do casal também resguarda um ambiente de fé

O “Armazém Zélia Macêdo” é um espaço de convivência entre amigos

Casamento de Zélia e Elder completou 57 anos

 

Experiência e vitalidade intelectual

 

“As instituições das quais participo contribuem para manter a vida ativa que tenho. As atividades dessas associações me ensejam trabalhos intelectuais e permitem vitalidade mental.” A declaração de Elder Heronildes define a importância de instituições, como a Academia Norte-rio-grandense de Letras e a Academia de Ciências Jurídicas e Sociais (ACJUS), no estímulo à vitalidade intelectual dele, que possui vasta experiência, adquirida no decurso dos seus 85 anos de idade.

Mossoroense, Elder é formado pela Faculdade de Direito que funcionava na Ribeira, em Natal – instituição posteriormente agregada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em suas obras literárias, projeta personalidades da música e da arte. Ao todo, são seis títulos: “O Casamento”, “Fatos e Vidas que são Presenças”, “Gente do Oeste Potiguar na ‘Província Submersa”, “Uma Data e Dois Homens”, “Raimundo Rubira da Luz” e “A Rua de Jaime e outros Temas”.

A participação de Elder no contexto das associações que representam a literatura potiguar é ampla. Integrante da Academia Norte-rio-grandense de Letras e da Acjus, Elder foi um dos fundadores da Academia Mossoroense de Letras, em 1988, e, atualmente, é presidente dessa instituição. Pertence ainda à Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Norte, Academia Apodiense de Letras e Academia de Letras de Campina Grande – nessas duas últimas, ocupa a condição de sócio correspondente.

A trajetória de Elder também está associada à fundação em 1957 do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), do qual foi presidente por mais de 10 anos, e ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGN), do qual é membro desde 1991.

E quem pensa que Elder está pensando em encerrar sua produção literária, engana-se. “Tenho novas obras em andamento que deverão ser publicadas no final do próximo ano”, conta. Essas ideias são desenvolvidas em um local muito especial para Elder. Trata-se da biblioteca de sua casa, que reúne cerca de 5 mil títulos. “Elder sempre está nessa biblioteca”, revela Zélia Heronildes.

ALÉM DA LITERATURA

Além do trabalho na literatura, Elder Heronildes atuou como presidente do Centro Estudantal Mossoroense em 1958 e presidente da União Universitária Mossoroense em 1966. Seu engajamento em ações políticas tornou-se, inclusive, objeto de um inquérito aberto no período da Ditadura Militar.

“O período da Ditadura Militar foi muito difícil para o Brasil. Fui observado pelos militares, porque minha conduta política não era alinhada com a deles. Eu tinha um posicionamento político mais voltado à esquerda”, diz.

Em 1972, Elder tornou-se procurador jurídico da Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte (FURRN). No ano seguinte, assumiu a função de vice-reitor da Universidade Regional do Rio Grande do Norte (URRN), atividade que desempenhou até janeiro de 1977, quando assumiu a reitoria da universidade, que hoje recebe a denominação de Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Elder desenvolveu a incumbência de vice-reitor da instituição no decurso de outras três gestões.

“Minha atuação como reitor da universidade enfrentou desafios muitos difíceis. Atravessamos momentos de atrasos salariais dos professores e dificuldades para cumprir a sistemática educacional. Tínhamos que fazer muito com poucos recursos. Contudo, um dos meus orgulhos é ter participado da Uern e ter feito parte dos seus 50 anos de existência”, expressa.

Elder também desenvolveu eminente atuação no Lions Club Internacional, uma organização internacional de clubes de serviço que se apresenta como uma entidade cujo objetivo é promover o entendimento entre as pessoas em uma escala internacional, atender a causas humanitárias e promover trabalhos voltados a comunidades locais. Elder foi vice-governador do Distrito L-14 do Lions Internacional, nos anos de 1972 e 1973. Nos dois anos seguintes recebeu designação de governador-fundador do Distrito L-25, compreendendo os estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e parte de Pernambuco, tendo recebido a medalha de “governador 100%”, concedida pelo presidente da associação, CL Johnny Balbo. Elder também é membro fundador das Lojas Maçônicas Amâncio Dantas e Sebastião Vasconcelos dos Santos.

“Sempre fiz parte de trabalhos em prol da comunidade. Acredito que recebemos de volta aquilo que fazemos em benefício de alguém”, declara.

FAMÍLIA

Elder Heronildes nasceu em Mossoró, no dia 9 de setembro de 1933, filho do pedreiro Francisco José da Silva e da dona de casa Francisca Laura da Silva. “Tenho prazer de dizer que sou mossoroense e de elevar e projetar o nome da minha cidade através do meu trabalho”, frisa Elder, que também enfatiza a importância de sua relação com Zélia. “Ter construído minha vida ao lado de Zélia foi muito importante. Digo isso pelo apoio, dedicação e cumplicidade expressados por ela. O amparo de Zélia foi fundamental para que eu pudesse superar as dificuldades”, declara.

Elder também expressa o amor que sente pelos filhos. “Os meus filhos, George e Disraeli, a exemplo da minha esposa Zélia, são peças fundamentais na minha vida, pelo carinho, amor e verdadeira devoção que deles sempre tenho recebido. São o meu orgulho e elementos sentimentais, pela marcante importância em minha vida, pelo estímulo, elevada compreensão, carinho e dedicação em todos os momentos. Deles sempre tenho recebido o conforto do amor e da dedicação, o que me alegra e faz bem”, diz.

Elder Heronildes entre sua coleção de chapéus

Elder nasceu em Mossoró, no dia 9 de setembro de 1933

Biblioteca de Elder reúne cerca de 5 mil títulos

 

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