La Paz, 17 de agosto de 2025 – A Bolívia foi às urnas neste domingo em um dos processos eleitorais mais decisivos de sua história recente. Após quase duas décadas sob o domínio do Movimiento al Socialismo (MAS), liderado por Evo Morales e, mais recentemente, por Luis Arce, a direita aparece pela primeira vez como favorita a assumir o comando do país.
Crise econômica acelera desgaste
O descontentamento popular tem origem no agravamento da pior crise econômica em quatro décadas. A inflação anual supera 23%, os subsídios já consomem 4,2% do PIB e a escassez de combustíveis, alimentos e dólares atinge diretamente o dia a dia dos bolivianos.
Com a queda brusca das exportações de gás – principal fonte de renda nacional – o governo perdeu capacidade de investimento e de sustentação dos programas sociais que marcaram os primeiros anos de Evo Morales.
Esquerda fragmentada
O MAS chega enfraquecido ao pleito. Evo Morales, impedido de concorrer, incentivou o voto nulo em protesto. O atual presidente Luis Arce desistiu da disputa e apoiou seu ministro Eduardo del Castillo, que aparece mal nas pesquisas. Outro ex-aliado, Andrónico Rodríguez, rompeu com o partido e lançou candidatura independente, ampliando ainda mais a divisão interna.
Direita em ascensão
Com a esquerda dividida, a direita se fortalece e disputa voto a voto a liderança das pesquisas. Dois nomes despontam como favoritos:
•Samuel Doria Medina – Empresário e político de centro-direita. Já foi candidato em outras eleições e defende um “plano de choque” para recuperar a economia, com foco na redução de subsídios, atração de investimentos privados e abertura ao capital estrangeiro, especialmente no setor do lítio. Sua imagem de gestor pragmático agrada parte da classe média urbana.
•Jorge “Tuto” Quiroga – Ex-presidente (2001-2002), conservador, propõe reformas mais radicais: privatização de empresas estatais, corte de gastos públicos e maior aproximação com os Estados Unidos. Ele se apresenta como um líder experiente capaz de enfrentar a crise com medidas duras.
As pesquisas mostram os dois empatados, com cerca de 20 a 30% das intenções de voto, o que deve levar a disputa para um segundo turno em 19 de outubro.
Fim de um ciclo
Desde 2006, a Bolívia esteve sob governos de esquerda, totalizando quase 19 anos de hegemonia do MAS, com breve interrupção em 2019-2020 no governo interino de Jeanine Áñez.
Embora Morales tenha sido celebrado inicialmente pela redução da pobreza e pelo crescimento econômico, os últimos anos foram marcados por crise, endividamento e perda de credibilidade do modelo socialista.
O que está em jogo
A eleição de 2025 pode representar uma virada histórica. A população boliviana, cansada do modelo de Estado inchado e das disputas internas da esquerda, olha para a direita como alternativa de mudança.
Seja com o perfil mais moderado de Doria Medina ou com a proposta mais dura de Quiroga, o país deve definir em outubro se encerra definitivamente um ciclo de quase duas décadas de socialismo.
