Vacas com mastite podem produzir de um a três litros de leite a menos por dia, segundo estudos apresentados pelo médico-veterinário Marcos Veiga. A redução na produtividade é apenas um dos prejuízos provocados pela doença, que também pode comprometer a qualidade do leite e a rentabilidade das propriedades rurais. Esses impactos, muitas vezes difíceis de identificar na rotina do produtor, foram tema de uma palestra realizada neste sábado (17), na Agência Sebrae na Festa do Boi 2026, no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim.
Com o tema “O prejuízo escondido no tanque: o impacto da mastite no seu bolso”, a apresentação foi conduzida por Marcos Veiga, professor titular e vice-diretor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP). Durante o encontro, ele apresentou resultados de pesquisas sobre os custos da doença e orientações para que os produtores possam identificar problemas e melhorar a qualidade do leite.
Segundo o especialista, um dos principais desafios é perceber os efeitos da mastite subclínica, forma da doença que não apresenta alterações visíveis no leite, mas compromete a produção dos animais. Nesses casos, vacas aparentemente saudáveis podem produzir menos, mesmo recebendo alimentação e cuidados semelhantes aos dos demais animais do rebanho.
A redução na produtividade é apenas uma parte do prejuízo. A mastite também pode comprometer a remuneração recebida pelo leite, especialmente nas indústrias que adotam critérios de pagamento por qualidade. Nos casos clínicos, os produtores ainda precisam considerar os gastos com tratamento e o descarte do leite durante os períodos em que ele não pode ser comercializado.
Outro impacto apresentado durante a palestra está relacionado à reprodução. De acordo com Marcos Veiga, estudos apontam que a doença pode prolongar em cerca de 30 dias o período em que a vaca permanece sem gestação, afetando o desempenho reprodutivo e acrescentando custos à atividade.
Para dimensionar os impactos financeiros da mastite, Marcos Veiga apresentou uma pesquisa desenvolvida em parceria com o Sebrae de Minas Gerais, com dados de propriedades leiteiras acompanhadas entre 2015 e 2017. O estudo identificou que fazendas com contagem de células somáticas próxima de 750 mil por mililitro de leite apresentaram lucro anual aproximadamente R$ 1 mil menor por vaca, em comparação com propriedades com índices próximos de 100 mil. O resultado evidencia como a ocorrência da doença pode comprometer a rentabilidade da atividade, mesmo quando as perdas não são percebidas diretamente pelo produtor.
Monitoramento ajuda a identificar perdas
Além de apresentar os prejuízos, Marcos Veiga destacou ferramentas que permitem acompanhar a ocorrência da doença e orientar medidas de controle. Uma das principais é a contagem de células somáticas (CCS), utilizada como indicador da presença de processos inflamatórios na glândula mamária.
“Sem informação, a gente fica no escuro. A gente sai atirando para cá e para lá, sem ter ideia de onde o problema está. Para identificar o problema nas vacas, a recomendação é que a gente faça essa análise uma vez por mês”, explicou.
Segundo o especialista, o primeiro passo para reduzir as perdas é conhecer a situação do rebanho. O acompanhamento da CCS no tanque permite avaliar a ocorrência de mastite na propriedade, enquanto a análise individual ajuda a identificar os animais que necessitam de maior atenção.
“Não dá para tomar decisão, não dá para investir, não dá para comprar um produto, não dá para fazer alguma medida se a gente não sabe onde está. E, para saber onde está, a gente precisa de três informações”, destacou, referindo-se à contagem de células somáticas no tanque, ao registro dos casos clínicos e à identificação da mastite subclínica.
Entre as alternativas mencionadas pelo especialista está o California Mastitis Test (CMT), exame que pode ser realizado na própria propriedade. A recomendação apresentada foi acompanhar mensalmente os indicadores, associando os resultados ao registro dos casos clínicos. A partir dessas informações, o produtor consegue compreender melhor a dimensão do problema e direcionar as decisões de manejo.
Outra etapa importante é identificar os agentes responsáveis pela mastite. O especialista explicou que a doença pode estar associada à transmissão entre animais ou à contaminação pelo ambiente, o que exige estratégias de controle diferentes. A análise microbiológica de amostras de leite é uma das ferramentas que ajudam a identificar os agentes envolvidos e orientar as medidas mais adequadas para cada situação.
Os efeitos da mastite também chegam à indústria. Alterações na composição do leite podem comprometer o rendimento na fabricação de derivados, como queijos, e interferir em características como textura e sabor. Dessa forma, a melhoria da qualidade beneficia não apenas o produtor, mas os diferentes segmentos da cadeia leiteira.
A palestra integrou a programação da Agência Sebrae na Festa do Boi 2026, realizada no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. Ao longo do evento, o espaço recebeu atividades voltadas à capacitação, à troca de experiências e ao compartilhamento de conhecimentos técnicos, aproximando produtores rurais, especialistas e representantes de instituições ligadas ao agronegócio.
