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O Brasil e a máfia dos Mais Médicos

Investigação revela como bilhões foram movimentados em um modelo acusado de explorar médicos cubanos e financiar ditaduras
Quando foi lançado em 2013, o programa Mais Médicos foi vendido como a solução para a falta de profissionais em regiões carentes do Brasil. A promessa era simples: levar atendimento básico de saúde a comunidades que há anos viviam no abandono. Mas, ao longo dos anos, o que deveria ser uma ação humanitária se transformou em um dos maiores alvos de denúncias políticas, acusações de exploração e suspeitas de financiamento de regimes autoritários — em especial, a ditadura cubana.
Primeiros sinais de fraude
Em março de 2015, o Jornal da Band divulgou gravações internas entre representantes do Ministério da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). Nos áudios, participantes discutiam estratégias para mascarar a verdadeira finalidade do programa e mencionavam até a possível vinda de “50 espiões” entre os médicos cubanos.
O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), à época, levou o caso ao Senado, acusando o governo de usar o programa como “canal de repasse de recursos públicos para sustentar o regime cubano”. Para ele, o contrato com a OPAS havia sido “maquiado” para evitar a fiscalização e o debate legislativo.
A engenharia financeira
O modelo era engenhoso — e opaco. O Brasil pagava R$ 10.457,49 por mês para cada médico. O dinheiro ia para a OPAS, que repassava a maior parte diretamente ao governo cubano.
Segundo dados de O Globo, Cuba ficava com cerca de R$ 713 milhões por ano — aproximadamente 77% do total. O médico recebia apenas uma fração, que no início do programa era de US$ 400 por mês (cerca de 13% do valor total pago pelo Brasil). Após pressão internacional, esse valor subiu para US$ 845, mas ainda muito abaixo do repassado a outros profissionais estrangeiros ou brasileiros.
De 2013 a 2017, conforme levantamento do UOL, o Brasil desembolsou R$ 7,1 bilhões para manter o programa. Desse montante, apenas uma pequena parcela foi para os médicos. O restante abasteceu os cofres de Havana, tornando o Mais Médicos uma das maiores fontes de divisas externas para Cuba no período.
Documentos reveladores
Telegramas obtidos em 2018 pela Folha de S. Paulo e pela TV Globo mostraram que a proposta original do programa partiu de Cuba, que enxergava no Brasil um “mercado promissor” para exportação de serviços médicos.
O governo Dilma Rousseff, segundo esses documentos, optou por fechar o acordo via OPAS justamente para evitar o debate no Congresso, que poderia travar a implementação. Essa decisão reforçou as críticas de que o programa foi desenhado para blindar interesses políticos e econômicos.
A ruptura com Bolsonaro
Durante a campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro prometeu rever o programa. Pouco depois de eleito, afirmou que o Mais Médicos era “um pretexto para financiar a ditadura cubana” e impôs novas exigências: pagamento integral diretamente aos médicos, revalidação obrigatória dos diplomas no Brasil e liberdade para trazer familiares.
Cuba recusou as condições e retirou cerca de 8 mil médicos do país. O governo brasileiro anunciou que iria substituir gradualmente os profissionais por brasileiros formados no exterior e médicos do próprio país.
Acusações de escravidão moderna
Organizações internacionais de direitos humanos, como a Human Rights Watch, e parlamentares brasileiros chegaram a classificar o modelo como “trabalho escravo moderno”. Os médicos não podiam circular livremente, tinham parte do salário retida e, em alguns casos, não podiam trazer suas famílias.
Para críticos, esse sistema configurava exploração laboral e violava convenções internacionais da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Investigações e impunidade
Apesar das denúncias, até hoje nenhuma condenação judicial confirmou que o Mais Médicos tenha sido um esquema ilegal de financiamento de ditaduras. O que existe são investigações paralelas sobre fraudes no SUS, falsos registros médicos e irregularidades contratuais, mas nenhuma responsabilização direta por “lavagem” de recursos via programa.
Juristas apontam que acordos de cooperação internacional, mesmo com regimes autoritários, não são, por si só, ilegais — mas ressaltam que, se houvesse prova de desvio de finalidade ou de coerção dos profissionais, o caso poderia configurar crime internacional.
Linha do tempo
•2013 – Lançamento do programa Mais Médicos pelo governo Dilma.
•2015 – Vazamento de áudios levanta suspeitas de espionagem e repasse irregular a Cuba.
•2018 (novembro) – Bolsonaro denuncia que o programa financia a ditadura cubana.
•2018 (novembro) – Telegramas revelam origem cubana da proposta e intermediação da OPAS.
•2018 (dezembro) – Cuba retira 8 mil médicos do Brasil.
•2023–2025 – Investigações pontuais no SUS; sem condenações ligadas ao caso Cuba.
Conclusão
O Mais Médicos foi apresentado como símbolo de inclusão social e atendimento humanitário, mas acabou marcado por acusações de corrupção, exploração e financiamento de regimes autoritários. Bilhões de reais circularam sob um contrato blindado, onde a maior parte do dinheiro não chegava ao profissional que trabalhava nas comunidades.
Entre quem o defende, o argumento é de que o programa salvou vidas e levou saúde a locais abandonados. Para os críticos, o Brasil não só participou como se tornou peça-chave de uma engrenagem que chamam de “máfia dos Mais Médicos”.
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