O catamarã Pegasus I deixa o cais no centro da cidade de Caravelas (BA), ao nascer do sol. O destino é o arquipélago dos Abrolhos, um dos principais redutos de biodiversidade marinha do Brasil.
A viagem tem duração prevista de cinco horas, mas acaba se alongando para muito mais tempo, porque os passageiros não estão simplesmente navegando, e sim, “baleiando”: seguindo o rastro das baleias jubarte, que todos os anos saem da Antártica e viajam até Abrolhos para acasalar e parir.
Cerca de duas horas após a partida, a comitiva se ajeita nos melhores pontos de observação do catamarã e apruma o olhar. O borrifo é o primeiro sinal da presença de uma baleia, e passa a determinar a direção do barco.
Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, não se trata de um jato de água expelido pelo animal, mas da condensação do vapor da sua respiração quente, que se transforma em água ao encontrar o ar frio da superfície.
Quando um borrifo aparece no horizonte, o primeiro observador alerta o restante do grupo e todos os olhos se voltam para a direção indicada, à espera de um dorso, ou quem sabe de um salto.
Caravelas (BA), 19/08/2026 – As baleias jubarte migram anualmente das áreas de alimentação polar para se reproduzirem nos trópicos. Abrolhos é o principal ponto reprodutivo da espécie – Tânia Rêgo/Agência Brasil
A embarcação segue no encalço do animal, e as máquinas fotográficas se preparam para o caso de a estrela do momento ser generosa e exibir a parte traseira da cauda, que a identifica. Cada jubarte tem um desenho único nesta parte do corpo, que funciona como uma impressão digital.
Quem nunca viu uma baleia de perto, aguarda com ansiedade. Mas quem sai para “baleiar” todos os anos, há décadas, também demonstra a mesma expectativa. Quando elas finalmente se exibem, com toda sua graça e plenitude, o encantamento é geral.
Por trás de uma das câmeras estava o fotógrafo de vida selvagem Enrico Marcovaldi, que registra baleias em Abrolhos há quase 40 anos.
Depois de tanto tempo, seria compreensível que ele encarasse a aparição dos animais com naturalidade, ou até alguma apatia. No entanto, cada clique vinha acompanhado do bordão: “Isso é que é bonito!”.
Esta é uma das expedições científicas do Instituto Baleia Jubarte que monitora a passagem desses animais pelo Brasil, produzindo estimativas de população e pesquisando seus hábitos e comportamentos.
Para isso, todos os animais avistados são catalogados, e algumas amostras de pele e gordura são coletadas para biópsia com uma espécie de flecha lançada por uma balestra. Como uma jubarte adulta mede mais de 10 metros e pesa cerca de 30 toneladas, a flecha, em proporções humanas, seria como uma lanceta para exame de glicose.
Caravelas (BA) – Pesquisadores fazem coleta de amostras para pesquisas biológicas das baleias que, no Brasil, permanecem no inverno e primavera (junho a novembro) – Tânia Rêgo/Agência Brasil
História
Desde os tempos do Brasil colônia, as jubartes foram caçadas, principalmente para a extração da gordura que, transformada em óleo, era largamente usada como combustível para iluminação. A caça só foi proibida em 1987 e colocou a jubarte na lista de animais em risco de extinção.
Um ano depois, durante as atividades para a implantação do Parque Marinho de Abrolhos, pesquisadores descobriram uma pequena população sobrevivente no arquipélago. Marcovaldi estava lá e decidiu, em parceria com a bióloga Márcia Engel, criar o Projeto Baleia Jubarte para estudar e proteger a espécie.
“Na primeira estimativa populacional nossa, que foi no princípio da década de 90, tinha de 1,5 mil a 2 mil baleias. Hoje estamos com mais de 35 mil. O sentimento é de dever cumprido. A população se recuperou de verdade”, ele comemora.
A formalização como instituto veio em 1996, assim como o patrocínio da Petrobras, que até hoje é o principal financiador dos trabalhos.
“Isso proporcionou essa abrangência no Brasil inteiro que a gente tem hoje. Onde as baleias estão, nós gostamos de estar junto”, acrescenta Marcovaldi.
No meio desse percurso, em 2014, a espécie saiu da lista de animais ameaçados de extinção. Os registros fotográficos feitos por Marcovaldi e outros pesquisadores do Instituto já permitiram identificar mais de dez mil baleias e, no início, eram a principal ferramenta de contagem populacional.
Há alguns anos eles passaram a ser inseridos em uma plataforma colaborativa utilizada por pesquisadores do mundo todo, que utiliza inteligência artificial para identificar se a marca caudal da baleia é mesmo única, ou se pertence a algum indivíduo já identificado anteriormente no Brasil ou em outro local.
Hoje, a principal estimativa populacional do instituto é feita por sobrevoo do litoral entre São Paulo e Rio Grande do Norte. O recorde de mais de 35 mil baleias foi contado na ultima estimativa de 2022. O cálculo deste ano ainda está sendo feito, mas deve ficar um pouco abaixo.
Enrico Marcovaldi ressalva que isso não significa uma regressão na conservação da espécie: “As temporadas são cíclicas. Em algumas você vê mais baleias, em outras você vê menos. Tem anos que elas ficam mais no Sul, outros que elas avançam mais pro Nordeste”.
Desafios
Caravelas (BA) – Eduardo Camargo é diretor-executivo do Instituto Baleia Jubarte – Tânia Rêgo/Agência Brasil
No entanto, as jubartes não estão passando ilesas pelos desafios dos tempos atuais, como a poluição e as mudanças climáticas. De acordo com o diretor-executivo do Instituto, Eduardo Camargo, a principal missão, hoje, é “harmonizar a atividade humana com a conservação das baleias-jubartes e outros cetáceos.
“O lixo impacta o oceano inteiro, que está coberto de microplástico. A questão climática afeta a disponibilidade de alimento, que rege todo o ciclo de vida dos animais. Nós temos vários trabalhos sendo feitos para buscar essas correlações das variáveis, pra descobrir como impacta. Mas com certeza impacta”, acrescenta Camargo.
Pesquisas
Caravelas (BA) – Coleta de amostras de baleias para pesquisa e biópsia – Tânia Rêgo/Agência Brasil
Ele lembra que a produção de conhecimento científico sobre as baleias-jubartes é o cerne do Instituto, até porque a caça exploratória criou uma grande lacuna de dados sobre esses animais: “Não se conhecia nada sobre as baleias, nem de onde elas vinham, pra onde iam… Só se sabia da sua extinção”
Ao longo do tempo, o Instituto se tornou não somente a maior fonte de dados sobre as jubartes no Brasil, como também um agregador de estudantes e pesquisadores de todo o país, interessados na espécie.
O capitão desse barco é o médico veterinário Milton Marcondes, Diretor de Pesquisas e um dos nomes por trás dos protestos feitos em 1987, para pressionar pela proibição da caça no Brasil.
“Aristóteles fala que você tem que encontrar o seu lugar no cosmos, que você nasce com uma vocação e se você não encontrar aquilo, você não vai ser feliz. A minha é baleia”
Mais de 700 estudantes de graduação já participaram do programa de estágio do Baleia Jubarte, contribuindo com as coletas de dados e atividades de educação ambiental. Além disso, cerca de 60 projetos de mestrado e doutorado foram concluídos em parceria com o instituto e mais de 130 artigos científicos foram publicados.
“A gente se tornou muito bom nessa parte de campo, de conhecer os bichos, saber o que dá para fazer, e estendemos as parcerias com as universidades para a gente ter a expertise dos doutores, do pessoal que já tem bagagem de ecologia, zoologia, genética…”
Uma das principais descobertas dos pesquisadores do Instituto foi o destino das baleias, quando deixam o país. Em 2006, ao comparar as manchas caudais de animais fotografados aqui e nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na Antártica, eles encontraram diversas correspondências.
“Uma das biópsias que a gente fez, a gente identificou um parente de outra baleia que a gente já tinha biopsado aqui. E era um parentesco tipo mãe e filho”, acrescenta Milton.
Com tudo isso, ficou comprovado que o Brasil é onde elas ficam quando estão acasalando ou parindo seus filhotes, enquanto a região ao redor das duas ilhas é o seu refeitório.
Caravelas (BA) – O médico veterinário Milton Marcondes é diretor de Pesquisa do Instituto Baleia Jubarte – Tânia Rêgo/Agência Brasil
Ameaças
Além de disponibilizar sua imensa base de dados para análise, o Instituto também recebe estudantes de mestrado e doutorado, interessados em participar das pesquisas de campo. Uma parte significativa das pesquisas em andamento investiga os efeitos das mudanças climáticas sobre as baleias, sob diversas abordagens.
A bióloga e mestranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Laura Aguiar, por exemplo , está analisando imagens de drone captadas pelo Instituto, desde 2018, para mensurar informações como comprimento e peso das baleias, e seu estado de saúde.
“Como são muitas imagens, eu consigo comparar temporadas diferentes e ver se a condição corporal delas estava melhor em alguns anos, se há indicativos de que elas estavam se alimentando melhor, e correlacionar isso com fatores ambientais”, ela explica.
Já Bruna Baleeiro, que parece ter nascido predestinada a ser uma pesquisadora de baleias, também mestranda na UFSC, está se debruçando sobre os registros de fotoidentificação feitos ao longo de mais de 30 anos, para atualizar as estimativas de abundância das baleias, e saber se os indivíduos têm voltado ao Brasil de forma recorrente ou não.
Caravelas (BA) – Amostra de krill, um minúsculo tipo de camarão, alimento das Jubartes – Tânia Rêgo/Agência Brasil
“Com estatísticas a gente pode chegar a uma taxa de sobrevivência, ou seja, ver se o indivíduo que veio em um ano, também veio no outro e tentar calcular quantos indivíduos sobreviveram ao longo de determinado período”, conta Bruna.
Ela ainda precisa finalizar os cálculos mas já percebeu que a temperatura na superfície da Antártica pode sim influenciar a abundância e a sobrevivência das baleias, principalmente por afetar a quantidade de krill (principal alimento das jubarte) que estará disponível para alimentação.
Pôr do sol na Ilha de Santa Bárbara com seu farol, no Arquipélago de Abrolhos. Baleias-jubartes são avistadas no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia – Tânia Rêgo/Agência Brasil
Outro campo crescente de pesquisa é a investigação dos comportamentos das baleias. “É uma forma de avaliar os impactos das ações humanas, da sísmica, navegação, usinas eólicas, turismo… Como medir o impacto? Conhecendo mais a fundo os comportamentos e se eles se alteram”, esclarece o Diretor de Pesquisas do Instituto.
Durante o seu doutorado na Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, Bianca Righi, escolheu se dedicar à relação entre as fêmeas e seus filhotes. No final do ano passado, ela publicou um artigo, com a descrição inédita, de um comportamento identificado durante o trabalho de campo.
“A gente conseguiu ver pela imagem do drone, a fêmea com as nadadeiras peitorais cruzadas, e o filhote no meio dela. Ela estava realmente dando um abraço de proteção, porque havia machos tentando se aproximar dela para acasalar, o que é um grande risco para o filhote. Então, ela virava a barriga para cima, puxava o filhote, e nadava de costas”, ela relata.
Relações institucionais
O Instituto Baleia Jubarte também tem forte atuação no aconselhamento especializado para a construção de políticas públicas de conservação marinha.
“Quem guarda a história do que aconteceu nos últimos 30 anos somos nós. Então, nós temos um reconhecimento muito grande. Não escutam tudo que a gente fala, mas pelo menos perguntam.”, afirma o Diretor Executivo Eduardo Camargo.
Também assessora empresas que buscam diminuir o seu impacto ambiental. O gerente de Projetos Ambientais da Petrobras, Gregório Maciel, lembra que a rota de movimentação do Terminal Aquaviário de São Sebastião (SP), o maior da área de petróleo e gás do país, foi modificada, por causa das jubartes.
“A partir do conhecimento gerado pelo monitoramento das baleias, a gente conseguiu desenhar o melhor traçado para esses barcos chegarem e saírem do terminal sem passar pela rota de migração delas”, explica.
“A gente consegue entender como a nossa operação hoje impacta a natureza, e a partir daí a gente tem dois dobramentos: a adequação da operação para gerar o menor impacto possível e o investimento social voluntário, em programas de regeneração e recuperação”, complementa o gerente da Petrobras.
A estatal financia o Baleia Jubarte desde a criação do Instituto. Para o ciclo atual, de 4 anos, foram repassados cerca de R$ 30 milhões de reais, que integram uma carteira de aproximadamente R$ 450 milhões destinados anualmente a diversos projetos ambientais.
“A gente está prestando um serviço público”, enfatiza Eduardo Camargo. “Tudo bem que é a nossa paixão também, a gente se satisfaz, se regozija, é a nossa missão… Mas estamos cumprindo um papel público”, complementa.
*A repórter e a fotógrafa acompanharam a expedição a convite da Petrobras
