O fim da vida útil dos parques eólicos e as possibilidades de reaproveitamento de seus componentes estiveram no centro da reunião do Comissão Temática de Energias Renováveis (COERE) da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), realizada na manhã desta quarta-feira (21), no Hub de Inovação e Tecnologia do SENAI-RN. O encontro reuniu empresários, especialistas e representantes de instituições para discutir soluções tecnológicas, requisitos ambientais e novas oportunidades de negócios ligadas ao descomissionamento dos aerogeradores.
O presidente da COERE, Sérgio Azevedo, destacou que a cadeia eólica entra em uma nova etapa, após os ciclos de implantação e operação dos parques. “A cadeia de energia eólica passou por um período de implantação, depois teve um período muito grande de operação e manutenção e agora está na fase de descomissionamento”, afirmou. Ele também ressaltou a relação do tema com a repotenciação dos parques e os desafios enfrentados pelo setor, como o curtailment, que consiste na restrição da geração de energia.
Para o diretor regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello, esse cenário também representa novas possibilidades para a indústria e para a qualificação profissional. “As oportunidades são gigantes. A necessidade de tecnologias que gerem modelos de negócio, não apenas descarte, vai demandar formação de pessoas. O SENAI-RN está preocupado com isso e buscando desenhar soluções tecnológicas em paralelo à formação de profissionais qualificados”, disse.
O ex-senador e chairman do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (CERNE), Jean Paul Prates, defendeu uma abordagem ampla para o tema, considerando os impactos ambientais, sociais e econômicos. A discussão envolve não apenas técnicas de desmontagem, reutilização, reciclagem e descarte responsável, mas também emprego, formação de mão de obra e os efeitos sobre as comunidades.
Descomissionamento exige planejamento e novas soluções tecnológicas
O diretor-geral do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA), Werner Farkatt, abordou os requisitos de licenciamento ambiental para o descomissionamento. Ele destacou a necessidade de apresentar um plano de desconstrução e de ampliar o diálogo entre as instituições para definir procedimentos adequados. “A ausência de regra técnica não significa ausência de obrigação ambiental”, afirmou, ressaltando que o processo vai além da simples retirada dos aerogeradores.
Além dele, o consultor técnico da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Charles Vieira de Mello, apresentou um panorama dos empreendimentos eólicos que se aproximam do fim da vida útil. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) citados na apresentação, cerca de 2 mil aerogeradores estão no horizonte de análise, e 42% deles completarão 20 anos de operação nos próximos dez anos. Entre as alternativas discutidas estão a extensão da vida útil por meio de manutenção, a substituição de componentes e a repotenciação parcial ou total dos equipamentos.
O descomissionamento também envolve desafios relacionados à logística, à desmontagem, à destinação dos resíduos e à recuperação das áreas. De acordo com os dados apresentados, entre 85% e 90% dos componentes dos aerogeradores são recicláveis. No entanto, o reaproveitamento das pás, fabricadas com materiais de maior complexidade para reciclagem, permanece como um dos principais desafios para o desenvolvimento de rotas tecnológicas que permitam recuperar materiais e gerar valor econômico.
Antônio Medeiros, Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER), abordou as rotas tecnológicas para a economia circular no descomissionamento de aerogeradores.
O debate também incluiu a apresentação de Darlan Santos, do CERNE, sobre descomissionamento e coprocessamento de pás eólicas, além das experiências de reaproveitamento de aerogeradores compartilhadas por Roser Valls e Samuel Pérez, da empresa espanhola Esteyco.
As discussões buscaram contribuir para a preparação do setor produtivo potiguar diante de uma nova etapa da energia renovável, com potencial para desenvolver soluções industriais, ampliar o reaproveitamento de materiais e criar novas cadeias de negócios.
